segunda-feira, fevereiro 06, 2006


Nós, eles, e a guerra a sério

Há um ano atrás, o desaparecimento de João Paulo II provocou um raro momento de consenso internacional e de um ecumenismo nunca visto. No funeral estiveram presentes chefes de estado, de governo ou pelo menos altos representantes de praticamente todos os estados no planeta. Ainda mais significativo, estiveram presentes altas figuras dos cleros de todas as religiões no Mundo, à excepção da politizada Igreja Ortodoxa Russa, que não conseguiu deixar de lado a sua postura nacionalista. Por um momento, parecia que o funeral do Papa mais internacional de sempre tinha conseguido unir o Mundo.

Mas, no último semestre - e mais concretamente no últimos dois meses -, o Mundo passou por mais manifestações de divisão e conflito civilizacional e religioso, todas elas mediáticas e com profundas consequências políticas, do que há memória. A subida ao poder pela via democrática de um governo fundamentalista radical no Irão, apostado na obtenção de um arsenal de armas nucleares e em aberto desafio da comunidade internacional, elevou ainda mais a tensão no Médio Oriente e entre o mundo muçulmano e o Ocidente. A tensão entre a Síria e o Líbano, resultante da libertação deste último país - um dos mais ocidentalizados da região - do jugo do primeiro, com as retaliações violentas da parte de Damasco. O recado - discreto, por via indirecta, mas efectivo - dado à Al Qaeda da ameaça dos EUA retaliarem com armas nucleares contra lugares santos do Islão caso fossem atacados com armas de destruição maciça. A explosão de violência em França protagonizada por comunidades imigrantes muçulmanas. A revelação da existência de prisões secretas mantidas pelos EUA na Europa para "lidar" com terroristas: o que há de realmente significativo é que o repúdio dos media não só não teve réplica nas opiniões públicas ocidentais, como estas se pautaram pela indiferença face aos alegados maus-tratos infligidos aos alegados terroristas. A retirada de Israel da Faixa de Gaza, num enorme sacrifício auto-imposto para tentar criar um modelo - senão de paz - pelo menos de segurança face à Palestina, o qual teve como "agradecimento" mais ataques terroristas. O crescente activismo dos radicais no Egipto e, na Palestina, a vitória nas eleições do Hamas, sendo a primeira vez que um grupo terrorista chega ao poder, ainda por cima pela via democrática. Por fim, temos agora a jihad pelas caricaturas.

A tensão entre o mundo islâmico e o Ocidente, num crescendo imparável desde o 11 de Setembro, está ao rubro. Não apenas por causa da agressividade muçulmana mas também por as opiniões públicas ocidentais parecerem estar a perder a paciência e a moderação pela qual tinham optado ao longo dos anos. Os primeiros sinais foram evidentes durante a Intifada em França, e agora são-no ainda mais perante a reacção às caricaturas de Maomé. Na Europa, onde nos últimos anos muitos acreditaram - ingenuamente - que o anti-americanismo militante serviria de alguma forma de protecção ao radicalismo muçulmano, acorda-se para a realidade cruel de que não somos menos odiados que os americanos, porque padecemos do mesmo "defeito" de sermos ocidentais. Alguns comentadores começam agora a quebrar o tabu, antes tido como domínio apenas de mentes lunáticas, discretos "think tanks" de Relações Internacionais, ou de jogos de computador, de considerar a hipótese de um grande conflito militar que oporia o Ocidente (e países ocidentalizados) ao mundo muçulmano, no que seria a III Guerra Mundial. No Ocidente, a hipótese já não é tão remota como se pensava. Pelo contrário, no mundo muçulmano tornou-se corrente a perspectiva de que essa guerra, a Nova Cruzada, começou com a invasão do Afeganistão e continuou com a do Iraque. E a crescente tensão com o Irão é vista como o próximo passo na dita Cruzada. O Ocidente só ainda não entendeu isso porque não fala Árabe e não vê a Al Jazeera.

Também os últimos tempos foram marcados por dois acontecimentos importantes no mundo militar. Há poucos dias, o Secretário da Defesa dos EUA, Donald Rumsfeld, apresentando as linhas mestras da política de defesa para os próximos anos, alertou os americanos para «uma longa guerra» (contra o Terrorismo), com a prespectiva de uma duração semelhante à da Guerra Fria. Algo que vai caracterizar o Século XXI. O segundo, que mereceu menos atenção, foi saber-se que os EUA têm usado napalm no Iraque. Não tardaram os anti-americanos do costume a fazer grande alarido com o assunto, reciclando a má fama que esta arma adquiriu na Guerra do Vietname. Mas o que parece ter escapado à atenção de toda a gente foi o que isto representou na mudança de postura. Nenhum país na História Militar se esforçou tanto por reduzir o sofrimento dos civis inimigos como os EUA, com um enorme investimento em tecnologia de ponta para que o ataque a forças inimigas fosse tão cirúrgico quanto possível, e assim reduzindo os danos colaterais ao mínimo. Os anos 90 foram a época das «guerras zero mortos» e das armas inteligentes. Hoje, tudo isso acabou. O contexto é outro, o inimigo faz pouco por merecer piedade a agora é o vale tudo. Agora a guerra é a sério.

João Quaresma Thomé