quinta-feira, julho 20, 2006


Saudades de Ronald Reagan

O conflito israelo-árabe reacendeu-se mais uma vez, e
mais uma vez para servir os interesses de uma potência
interessada em desviar a atenção dos EUA. Até 2003,
foi o Iraque a patrocinar a instabilidade na
Palestina, em particular através da «2ª Intifada», em
reacção à eleição de George W. Bush em 2000, como
forma de adiar a guerra que destituiria Saddam Hussein
do poder. Saddam chegava, inclusivamente, a pagar 20
mil dólares às famílias dos bombistas suicidas
palestinianos. Uma das justificações dos EUA para
invadir o Iraque foi precisamente o facto do regime de
Badgad ser apoiante do terrorismo, o que - pelo menos
na Palestina - era totalmente verdadeiro.

Acabado Saddam, o Irão (que nunca deixou de auxiliar o
Hezbollah e os grupos palestinianos, incluindo a Fatah
de Yasser Arafat) passou a ser o grande apoiante do
terrorismo na região. Mas o facto é que os esforços do
Irão em sustentar a instabilidade foram comprometidos
pelo sucesso da estratégia de Ariel Sharon de, por um
lado, assegurar a protecção de Israel (racionalizando
o seu esforço de defesa e construindo o muro de
segurança) e de, na pratica, obrigar os palestinianos
a assumirem o estado que reclamam, pondo a nú a sua
incapacidade em governarem-se.

Necessitando de novos focos de instabilidade para
desviar as atenções internacionais (ao mesmo tempo
em que prosseguia o seu programa nuclear), o Irão
apostou também em provocar uma guerra civil no Iraque
pós-Saddam. Mas também aqui a estratégia de Teerão
falhou. Apesar dos atentados brutais que o país
conhece praticamente todos os dias, o facto é que se
essa guerra não aconteceu até agora é porque já não
vai acontecer.

Pelo meio, houve ainda o episódio da orquestração da
raiva muçulmana contra as caricaturas dinamarquesas de
Maomé, muito tempo depois de estas terem sido
publicadas.

Que alternativas restavam ao Irão? Poucas. Assim,
jogou a cartada libanesa, em conjunto com a Síria
(dando-lhe a oportunidade de se vingar da sua expulsão
pacífica deste país). Uma guerra combatida por
procuração, como sempre, através do Hezbollah, feita
de forma a obter a previsível retaliação israelita.
Ainda para mais porque o Irão forneceu armamento poderoso
e sofisticado ao seu aliado local, que poderá ter sido
até complementado com tropas iranianas (recorde-se que
os Pasdaran também combateram na Bósnia-Heezagovina).

A situação gerada cria o cenário perfeito para uma
intervenção militar internacional (como já sucedeu
neste país, no passado), que obrigará a uma presença
militar numerosa e prolongada, à semelhança do sucedido na
ex-Jugoslávia. E assim se desviam ainda mais os
recursos dos países ocidentais, já de si tornados
escassos nos casos europeus, por opções políticas
demagógicas. Kofi Annan e a França (que mais uma vez
não perdeu a oportunidade de fazer duas das coisas
para que tem mais jeito: lamber as botas ao mundo
árabe, e falar em nome da Europa sem pedir autorização
a ninguém) foram os primeiros a cairem na armadilha.

Por seu lado, Israel está a pagar o preço da decisão
errada de Ehud Barak de retirar do Sul do Líbano,
deixando o caminho aberto para o estabelecimento do
Hezbollah na fronteira israelita. Nessa altura já
estava demonstrado que de nada servia entregar
território em troca de promessas de retoma do processo de paz,
porque - entre outras razões - os líderes
palestinianos dependiam da situação de guerra para se
manterem no poder.

Agora é a vez dos libaneses serem (mais uma vez) as
vítimas da vontade dos seus "irmãos" árabes de
manterem o conflito israelo-árabe aceso.

Comparando com a guerra dos anos 70-80, os EUA estão a
simplesmente assistir ao conflito sem nada fazerem.
Por um lado, é compreensível uma vez que não querem
cair da armadilha iraniana, caíndo em mais um
atoleiro. Mas também é certo que a inacção dos EUA
está a permitir que o conflito tenha tomado de um dia
para o outro proporções verdadeiramente preocupantes.
Mesmo que seja do interesse do Ocidente deixar Israel
desfazer o Hezbollah.

É nestas alturas é que se sente saudades de ter alguém
como Ronald Reagan na Casa Branca (na minha opinião,
aquilo de que a política americana mais precisa nos
tempos que correm). Com ou sem URSS, Reagan já teria
colocado um porta-aviões na zona no dia seguinte e
obrigado a Síria e o Irão a puxarem as rédeas ao
Hezbollah. Não haveria força de paz internacional nem o
Irão estaria a conseguir desviar as atenções de si próprio.

JQT

2 Comentários:

At sexta-feira, 21 de julho de 2006 às 11:23:00 WEST, Blogger mulah omar said...

Desta vez não posso concordar com o JQT.

Os principais mentores de factores que tentam levar a cabo uma guerra civil aproveitando o caos em que o Iraque se tornou no pós Abril de 2003, mercê da péssima ideia em derruubar Saddam Hussein, não são os xiitas nem o Irão, a quem não interessa ter um país em polvorosa às suas portas, mas sim os radicais islamistas waaabitas sunitas ligados à Al Qaedda.

os Xiitas mairitários seguem o grande aitatolah Al Sistani, e apenas um grupo mais radical de xiitas segue o aiatolah al Moktada al Sadr, que até conta com o apoio de um milícia armada, o Exército Mehadi.

Quanto ao Líbano, já não descartaria a hipótese do Hezzebolah ter sido instrumentalizado pelo Irão para efectuar esta inaudita iniciativa procadora de instabilidade, como forma de Irão desviar de si as atenções intrernacionais sobre o seu programa nuclear, e eventualmente criar, ou pelo menos tentar criar uma nova realidade estratégica na região, através do evidente colapso libanez, enfraquecendo ainda mais o país e assim, colocando-o de novo na órbita síria.

 
At segunda-feira, 24 de julho de 2006 às 18:31:00 WEST, Blogger JQT said...

Mulah Omar:

Mokatda Al Sard foi usado durante algum tempo pelo Irão para diminuir o poder de Al Sistani. Até porque o clero xiíta iraniano não deseja que o congénere iraquiano (que em termos de hierarquia religiosa não é menos importante, nomeadamente o de Kerbala) lhe dispute o poder dentro da chamada "Revolução Islâmica". E serviu para castigar os xíitas iraquianos pela sua alternativa "independentista" (isto é, não obedecerem a Teerão). Recorde-se que o Irão encomendou alguns dos ataques da parte dos sunitas contra os xiítas, inclusive por parte do defunto Al Zarqawi, que durante algum tempo foi um agente duplo infiltrado pelo Irão na Al Qaeda (Al Zarqawi pertencia à facção de Mudjahedins que durante a Guerra do Afeganistão dos anos 80, foi apoiada pelo Irão, ao contrário de Bin Laden, apoiado pelo Paquistão e Arábia Saudita).

 

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