terça-feira, fevereiro 28, 2006


Reino Unido pode trocar o F-35 pelo Rafale

A tradicional aliança militar entre o Reino Unido e os Estados Unidos poderá sofrer com a possibilidade recentemente referida pelas autoridades britânicaa através da voz do secretário da defesa britânico, John Reid de compra por parte do Reino Unido de 150 caças franceses Rafale na sua versão naval.

A possibilidade - sem precedentes históricos - de um porta-aviões britânico vir a ser operado com aeronaves de fabrico francês, decorre da enorme relutância por parte dos Estados Unidos em fornecer à Royal Navy caças F-35 (presentemente em estudo e desenvolvimento) equipados com os mais recentes sistemas disponíveis, e acima de tudo, sem a mais recente versão da cobertura absorvente de ondas de radar que transforma a aeronave em um ponto praticamente invisível a grande parte dos radares modernos. As reticências americanas, poderiam mesmo levar a que parte da manutenção das aeronaves F-35 (também conhecida como JSF) tivesse que ser feita nos Estados Unidos, como acontece por exemplo com os caças F-15 da Arábia Saudita.

Esta situação poderia mesmo impedir os britânicos de incorporarem os seus próprios sistemas de armas, ficando o Reino Unido absolutamente dependente da vontade de Washington em aceitar ou não a incorporação ou modernização dos caças F-35 de propriedade britânica.

Já desde ha algum tempo que fontes do Pentágono tinham referido que viam com desconfiança a possibilidade de fornecer à Grã Bretanha a sua mais recente tecnologia no que respeita às qualidades "stealth" das suas aeronaves, ou de disponibilizar aos britânicos muita da tecnologia desenvolvida propositadamente para este tipo de aeronave. Uma das possibilidades ou razões para a recusa americana poderá decorrer do facto de o F-35, com todos os recentes desenvolvimentos no que respeita à tecnologia Stealth, é praticamente tão sofisticado em termos de tecnologia de encobrimento (Stealth) quanto o caríssimo e sofisticadissimo F-22, que já está operacional numa esquadra da USAF. Colocar um F-35 muito sofisticado nas mãos de uma potência estrangeira é visto por muita gente no Pentágono como um grande risco, não pela eventual possibilidade de um absolutamente improvável conflito com o Reino Unido, mas por não ser impossível que através de empresas britânicas, fora da alçada de Washington, outros países possam desenvolver as suas próprias tecnologias, colocando assim em causa a clara superioridade dos norte-americanos na matéria.

Entretanto, a França, que pretende construir o seu segundo porta-aviões baseando-se no desenho presentemente em estudo pelos britânicos, parece ter apresentado uma proposta que pretende substituir os caças F-35 de origem americana pelos caças franceses Rafale. No caso de tal ocorrer, representaria uma inflexão de considerável importância na política externa do Reino Unido que tem sempre pautado a sua actuação por um maior alinhamento com os americanos contra um alinhamento com as principais potências continentais (França e Alemanha). Pode igualmente ocorrer que as presentes movimentações sejam apenas uma forma de os britânicos pressionarem os norte-americanos e forçarem Washington a ultrapassar as reticências relativamente ao fornecimento dos F-35.

Nos últimos dias, a empresa BAE Systems, do Reino Unido, afirmou que a solução mais correcta deveria passar pelo desenvolvimento de uma versão naval do avião Eurofighter/Typhoon, o qual tem apenas versões terrestres presentemente. A BAE Systems afirmou também recentemente que não deverá optar por uma operação de fusão com as americanas Boeing ou Lockeed-Martin. [img3]Parte do problema britânico reside no facto de além da França (que já tem o Rafale) nenhum outro país europeu ter, ou planear ter porta-aviões convencionais, dispondo de catapultas com capacidade para operar o Typhoon.

Além da França e do Reino Unido, apenas a Itália e a Espanha dispõem de porta-aviões e qualquer deles, precisa forçosamente de uma aeronave de STOVL (Short Take-Of and Vertical Landing) como o Harrier ou como uma versão naval do F-35, embora nenhum destes países (Espanha e Itália) tenham a mesma capacidade e peso em Washington que tem o Reino Unido.

A questão com os Estados Unidos, deixa cada vez mais de "pé atrás" os tradicionais aliados da América. Em Portugal, embora estejamos noutro campeonato, a questão toca-nos porque dentro de anos, depois de se completar o MLU dos actuais F-16, estes aviões terão que ser substituídos. Nessa altura, também Portugal terá que decidir se continua com o tradicional vinculo atlântico. A decisão britânica é deste ponto de vista da maior importância, porque poderá dar indicações sobre qual o caminho mais correcto.

Não é previsível que o Reino Unido passe a alinhar em absoluto com o bloco continental europeu (França e Alemanha), e neste caso as opções britânicas, hoje como ontem poderão ser uma referência. Os Estados Unidos por seu lado, chegaram a uma posição de domínio no mundo, da qual não vão abrir mão com facilidade. Quaisquer vendas a efectuar pelos Estados Unidos no futuro devem por isso ter em consideração a necessidade americana de garantir essa superioridade tecnológica a todo o custo.

Ao que parece, os americanos estarão mesmo dispostos a excluir o seu mais tradicional aliado da lista de clientes, para garantirem a superioridade tecnológica que dá ao Estados Unidos o estatuto de polícia do mundo

Mensagem automática publicada por : Paulo Mendonça

segunda-feira, fevereiro 06, 2006


Nós, eles, e a guerra a sério

Há um ano atrás, o desaparecimento de João Paulo II provocou um raro momento de consenso internacional e de um ecumenismo nunca visto. No funeral estiveram presentes chefes de estado, de governo ou pelo menos altos representantes de praticamente todos os estados no planeta. Ainda mais significativo, estiveram presentes altas figuras dos cleros de todas as religiões no Mundo, à excepção da politizada Igreja Ortodoxa Russa, que não conseguiu deixar de lado a sua postura nacionalista. Por um momento, parecia que o funeral do Papa mais internacional de sempre tinha conseguido unir o Mundo.

Mas, no último semestre - e mais concretamente no últimos dois meses -, o Mundo passou por mais manifestações de divisão e conflito civilizacional e religioso, todas elas mediáticas e com profundas consequências políticas, do que há memória. A subida ao poder pela via democrática de um governo fundamentalista radical no Irão, apostado na obtenção de um arsenal de armas nucleares e em aberto desafio da comunidade internacional, elevou ainda mais a tensão no Médio Oriente e entre o mundo muçulmano e o Ocidente. A tensão entre a Síria e o Líbano, resultante da libertação deste último país - um dos mais ocidentalizados da região - do jugo do primeiro, com as retaliações violentas da parte de Damasco. O recado - discreto, por via indirecta, mas efectivo - dado à Al Qaeda da ameaça dos EUA retaliarem com armas nucleares contra lugares santos do Islão caso fossem atacados com armas de destruição maciça. A explosão de violência em França protagonizada por comunidades imigrantes muçulmanas. A revelação da existência de prisões secretas mantidas pelos EUA na Europa para "lidar" com terroristas: o que há de realmente significativo é que o repúdio dos media não só não teve réplica nas opiniões públicas ocidentais, como estas se pautaram pela indiferença face aos alegados maus-tratos infligidos aos alegados terroristas. A retirada de Israel da Faixa de Gaza, num enorme sacrifício auto-imposto para tentar criar um modelo - senão de paz - pelo menos de segurança face à Palestina, o qual teve como "agradecimento" mais ataques terroristas. O crescente activismo dos radicais no Egipto e, na Palestina, a vitória nas eleições do Hamas, sendo a primeira vez que um grupo terrorista chega ao poder, ainda por cima pela via democrática. Por fim, temos agora a jihad pelas caricaturas.

A tensão entre o mundo islâmico e o Ocidente, num crescendo imparável desde o 11 de Setembro, está ao rubro. Não apenas por causa da agressividade muçulmana mas também por as opiniões públicas ocidentais parecerem estar a perder a paciência e a moderação pela qual tinham optado ao longo dos anos. Os primeiros sinais foram evidentes durante a Intifada em França, e agora são-no ainda mais perante a reacção às caricaturas de Maomé. Na Europa, onde nos últimos anos muitos acreditaram - ingenuamente - que o anti-americanismo militante serviria de alguma forma de protecção ao radicalismo muçulmano, acorda-se para a realidade cruel de que não somos menos odiados que os americanos, porque padecemos do mesmo "defeito" de sermos ocidentais. Alguns comentadores começam agora a quebrar o tabu, antes tido como domínio apenas de mentes lunáticas, discretos "think tanks" de Relações Internacionais, ou de jogos de computador, de considerar a hipótese de um grande conflito militar que oporia o Ocidente (e países ocidentalizados) ao mundo muçulmano, no que seria a III Guerra Mundial. No Ocidente, a hipótese já não é tão remota como se pensava. Pelo contrário, no mundo muçulmano tornou-se corrente a perspectiva de que essa guerra, a Nova Cruzada, começou com a invasão do Afeganistão e continuou com a do Iraque. E a crescente tensão com o Irão é vista como o próximo passo na dita Cruzada. O Ocidente só ainda não entendeu isso porque não fala Árabe e não vê a Al Jazeera.

Também os últimos tempos foram marcados por dois acontecimentos importantes no mundo militar. Há poucos dias, o Secretário da Defesa dos EUA, Donald Rumsfeld, apresentando as linhas mestras da política de defesa para os próximos anos, alertou os americanos para «uma longa guerra» (contra o Terrorismo), com a prespectiva de uma duração semelhante à da Guerra Fria. Algo que vai caracterizar o Século XXI. O segundo, que mereceu menos atenção, foi saber-se que os EUA têm usado napalm no Iraque. Não tardaram os anti-americanos do costume a fazer grande alarido com o assunto, reciclando a má fama que esta arma adquiriu na Guerra do Vietname. Mas o que parece ter escapado à atenção de toda a gente foi o que isto representou na mudança de postura. Nenhum país na História Militar se esforçou tanto por reduzir o sofrimento dos civis inimigos como os EUA, com um enorme investimento em tecnologia de ponta para que o ataque a forças inimigas fosse tão cirúrgico quanto possível, e assim reduzindo os danos colaterais ao mínimo. Os anos 90 foram a época das «guerras zero mortos» e das armas inteligentes. Hoje, tudo isso acabou. O contexto é outro, o inimigo faz pouco por merecer piedade a agora é o vale tudo. Agora a guerra é a sério.

João Quaresma Thomé